
Durante as emendas de feriados, tive a oportunidade de assistir à aclamada série O Gambito da Rainha, que narra a fascinante e desafiadora trajetória de uma enxadrista prodígio. Desde os primeiros episódios, foi impossível não traçar paralelos e fazer grandes associações com a dinâmica e as exigências da vida empresarial, especialmente no que tange à complexidade da estratégia e à essência da liderança. A cada movimento no tabuleiro, a cada decisão sob pressão, percebia-se um espelho das situações enfrentadas diariamente por empreendedores e executivos.
De fato, assim como no xadrez, a vida empresarial nos exige um olhar profundamente holístico e estratégico, um discernimento que é resultado não apenas de muito estudo e acesso à informação, mas também de uma inteligência emocional aguçada. Adicionalmente, o jogo dos negócios, tal qual o xadrez, demanda coragem para assumir riscos calculados, sangue frio para lidar com reviravoltas inesperadas, e, acima de tudo, uma dose essencial de humildade para reconhecer erros e aprender continuamente. É nesse intrincado balé de cálculo e intuição que a verdadeira maestria se revela, tanto no tabuleiro quanto no mercado.
A humildade como estratégia de liderança
A humildade para nos consultarmos com colegas, pessoas mais experientes e de outras áreas é fundamental para ampliarmos nossa visão. Quantos mentores tive ao longo destes 30 anos de empreendedorismo, com quem compartilhei dúvidas, aflições e tomadas de decisões, me beneficiando de suas experiências e de sua visão neutra.
Desmistificando o “Nunca Desista”: Uma visão realista
Pessoalmente, tenho aversão a discursos do tipo “NÃO DESISTA JAMAIS!”. Considero um discurso tóxico, que para mim representa o empreendedorismo de palco. Na vida real, assim como no xadrez, a sabedoria consiste em insistir, persistir, saber recuar e até desistir, se este for o caso.
Se há uma habilidade que desenvolvi ao longo do tempo como empresária, foi a de domar meu ego e orgulho para saber tomar as decisões certas e sadias. E fazê-lo o quanto antes, antes que mais estrago seja feito.
| Empreendedorismo de palco |
Empreendedorismo real |
| Discursos motivacionais vazios |
Experiências práticas vivenciadas |
| “Nunca desista jamais” |
Saber quando recuar estrategicamente |
| Teorias sem aplicação |
Aprendizado através de erros reais |
| Ego inflado |
Humildade para buscar mentoria |
Desafios reais: Quando a vida testa a liderança
Estar por 30 anos à frente de uma empresa me colocou diante de uma infinidade de oportunidades, desafios, crises e conflitos de toda natureza. Adicionalmente, no meu caso, passei ainda por duas sucessões por morte de sócios jovens — um marido e um irmão — momentos em que as tomadas de decisões difíceis somam-se à fragilidade emocional do momento familiar.
Apesar disso, a tomada de algumas decisões empresariais cruciais deve contemplar nosso olhar sobre a equipe, sobre nossos parceiros, sobre nossa cadeia produtiva, indo muito além de um olhar sobre nós mesmos e nossa família.
A visão holística nas decisões empresariais
Por isso, seja para continuar, decidir parar ou mudar o rumo dos negócios, nossas decisões devem beneficiar toda esta cadeia, garantindo sua vitalidade. Se for para encerrar alguma etapa de negócios, que o façamos dentro de um timing que também garanta a integridade da maior parte possível desta cadeia.
É muito, muito tênue a linha que separa o timing correto do precoce ou tardio, a melhor decisão daquela mal tomada mesmo com a melhor das intenções. Não é fácil e quase nunca é certeiro.
As competências do empresário-enxadrista
Por isso, empreender implica em coragem. Coragem para aprender, coragem para errar, para tomarmos decisões em momentos de fragilidade absoluta, coragem para sacrificarmos a parte em benefício do todo.
Paralelos entre xadrez e empreendedorismo:
- Visão estratégica: Antecipar movimentos e consequências;
- Paciência tática: Saber esperar o momento certo;
- Sacrifício calculado: Abrir mão de algo menor para ganhar algo maior;
- Adaptabilidade: Ajustar estratégia conforme o jogo evolui.
| Situação |
Decisão no xadrez |
Decisão empresarial |
| Posição desfavorável |
Gambito – sacrificar peça |
Reestruturação – cortar custos |
| Oportunidade de ataque |
Movimento agressivo |
Investimento em expansão |
| Pressão do oponente |
Defesa estratégica |
Consolidação de mercado |
| Xeque-mate iminente |
Rendição honrosa |
Venda ou fechamento planejado |
O sacrifício supremo: Quando o líder se sacrifica
E, de fato, muitas vezes, a parte sacrificada poderá ser você, para que o todo não sofra um xeque-mate. No xadrez, o gambito é uma jogada onde se sacrifica uma peça para obter vantagem posicional. Analogamente, nos negócios, às vezes o líder precisa fazer o mesmo sacrifício estratégico.
Assim, a verdadeira maestria não está em nunca perder uma partida, mas sim em saber quando sacrificar para proteger o que realmente importa. Contudo, assim como no xadrez, conseguimos desenvolver esta habilidade apenas após alguns erros crassos, falhas de julgamento e após muita estrada percorrida.
Estratégias práticas para o empresário-enxadrista
Desenvolvendo inteligência estratégica
A inteligência estratégica no empreendedorismo, assim como no xadrez, requer prática constante e análise profunda de cada movimento. É fundamental desenvolver a capacidade de enxergar múltiplos cenários simultaneamente, considerando não apenas o movimento imediato, mas suas ramificações futuras.
Construindo redes de mentoria
O valor de ter mentores experientes não pode ser subestimado. Eles oferecem a perspectiva neutra que muitas vezes nos falta quando estamos imersos nos desafios diários. A experiência compartilhada acelera nosso aprendizado e nos ajuda a evitar armadilhas comuns.
O jogo nunca termina
Dessa forma, assim como no xadrez, o empreendedorismo é um jogo de estratégia onde cada movimento tem consequências. No entanto, a diferença crucial é que, no mundo dos negócios, as peças são pessoas reais, com vidas e sonhos que dependem de nossas decisões.
Nesse sentido, O Gambito da Rainha nos ensina que os maiores líderes são aqueles que têm a coragem de se sacrificar pelo bem maior. Por vezes, isso significa sacrificar o próprio “rei” para salvar o “reino”.
Para sua reflexão: Que “gambitos” você já precisou fazer em sua trajetória empresarial? Como você equilibra coragem e prudência em suas decisões estratégicas?
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